Flávio Carneiro
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Memórias de um Vampiro
Brasigóis Felício.
Revista Bula. Goiânia, 25.08.2008.

O personagem do romance A Confissão, de Flavio Carneiro, lembra em muito Raskolnikov, personagem de Crime e Castigo, bem como o narrador de Memórias de Um Homem do Subsolo, de F. Dostoiévski. Como Raskolnikov, o estudante assassino de Crime e Castigo, o personagem de A Confissão parece sofrer de um "excesso de consciência", se é que a consciência possa ser excessiva. Mas sabemos: crimes coletivos como guerras de extermínio, holocausto e genocídio são cometidos em nome da boa consciência.
O personagem sem nome de Flavio Carneiro é um homem do subsolo (embora seja adepto de freqüentar bibliotecas, mas por motivos pouco nobres). É um vampiro em busca de do sentido da vida através da subjugação e exercício de poder como instrumentos de prazer. Como Raskolnikov, e alguém que, em nome da sobrevivência dele mesmo, se coloca acima da moral e das leis. Os dois surgem como grandes ressentidos sociais. São protótipos da criatura humana que não consegue nem quer fazer nada, mas nutre ódio mortal pelos que fazem e conseguem atingir seus objetivos.
Raskolnikov comete duplo assassinato. O personagem sem nome de Flavio perpetra um seqüestro. Sua narração é labiríntica, em que o aparente desfecho é abertura para outra história de um outsider (estrangeiro em si mesmo) buscando entender ou justificar seu ato criminoso. Se Raskolnikov, dilacerado por idéias e ideais de viver em uma sociedade perfeita, de onde os fracos e os incapazes são alijados (vistos como aleijados), o personagem de Flavio vive de livros, ou melhor, de roubá-los. Ou seja: freqüenta bibliotecas não para enriquecer os miolos, mas para tirar a Biafra da barriga. Vende o miolo dos livros (com capa e tudo) para comprar o miolo do pão. Sua história configura a metáfora da violência gratuita como expressão de ressentimento social.
O homem do subsolo pode ser o ressentido impotente, que em seu diário, faz um relato de seu ódio e fracasso. O homem que seqüestra a madame para obrigá-la a escutar a história de sua vida, feita só de miséria, não quer apenas falar de si. Antes, deseja que ela também fale. Só assim pode ser espelho através do qual ele mesmo pode se ver. À vítima cabe dar uma escuta forçada ou constrangida, porque não escolhida. O seqüestrador quer mostrar à mulher que tem um Si-Mesmo, é uma pessoa, não um fantasma humano, rato famélico, que tem de fuçar lixeiras para não morrer de fome. Ou que, para almoçar, tem que vender algum livro que roubou no dia anterior, ou no mesmo dia. O faminto fanático por cardápios de restaurantes e nucas de mulheres. O medo que sente da vida é o medo que impõe às suas vítimas.
Em uma alquimia delituosa, faz a arte da literatura se transformar em comida de sobrevivência. Muitos escritores também tiveram que passar por isto: vender o miolo da cabeça para roubar o miolo do pão. Lima Barreto passou fome. Em seu diário íntimo, registra: "Uma semana sem comer carne. Hoje comi uma empadinha. Que felicidade!". Como Julien Sorel, o seqüestrador de A Confissão é o homem desafortunado e infeliz, em guerra com a sociedade. Raskolnikov mata a velha agiota e sua empregada em nome do ideal de uma sociedade culta e socialista. O personagem de A Confissão seqüestra para ser escutado. Ele comete o crime julgando-se com todo o direito de perpetrá-lo, uma vez que vive em uma sociedade que tudo perdoa, menos o fracasso.
A fala-monólogo de A Confissão busca colocar no mesmo balaio a culpa de vítimas e perpetradores, uma vez que tudo está conectado, tudo vive em relação, como o personagem mesmo alega, na tentativa de explicar ou defender o seu ato. Sua vida e suas idéias guardam estreita relação com o flaneur de Baudelaire - para não falar com o homem do subterrâneo, de Dostoiévski: "Andar a esmo pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria, eu me sentia bem ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes, às vezes pelo simples prazer físico de andar até os músculos doerem...".

" (...) meu prazer maior, no entanto, ainda não disse, era ler cardápios de restaurantes". Isto faz lembrar a crônica "Os olhos dos pobres", de Charles Baudelaire, em seu Pequenos Poemas em Prosa. Nela vemos que os olhos dos pobres, postos nos que comem, fazem com que estes, comensais, se sintam em profunda culpa, e até percam o apetite. São olhos acusadores. Em A Confissão, temos a gentileza de um seqüestrador que é ladrão e leitor de livros. Em solidão e miséria na cidade grande, comete um crime para ter um ouvido à mercê de sua fala caudalosa. Alguém por quem se apaixonou, não pela beleza, mas pelo refinamento social.


Este é um criminoso que se permite querer ter modos e sentimentos delicados. Preocupa-se com a dor que deve estar sentindo o marido da mulher que seqüestrou. Afinal, ela tem família, filhos. Ele, o seqüestrador, tem palavras de alguém de gosto refinado - ao menos até a transformação que o levou a cometer o seqüestro: o momento epifânico em que se soube capaz de degustar um bom vinho, sentindo sua qualidade no paladar que ele achava que não possuía. Delicado, porém precavido: toma todos os cuidados para que sua vítima não possa fugir. Elas, em vez de se debaterem ou buscar uma fuga, ou ao menos gritar por socorro, parecem sucumbir à sua lábia, talvez possuídas pela síndrome de Estocolmo.
Ele é um vampiro de sensações, emoções e sentimentos, e não quer apenas falar - também quer escutar sua vítima. Em sua fala, o homem fala do prazer que tem em estar em uma sala de cinema, como que devolvido ao útero, à proteção da caverna. Relata o horror que sente, terminada a sessão, em sair de novo à realidade, tendo de "conviver com gente de verdade, com carros, ruas desertas, mansões, madrugada, seqüestros". Mesmo sendo uma pessoa que não vende seu tempo para ninguém, já que é desempregado crônico e opcional, não quer perder tempo... sabe o valor do tempo. E quem conhece o valor do tempo também sabe o valor do silêncio.
O faminto vê como carrasco o churrasqueiro, a brandir seu enorme espeto de carnes sanguinolentas. Ver isto lhe dói como um soco no estômago. Como no poema "As bocas do tempo", de Brasigóis Felício: "Cronos nos come em tudo o que comemos/ comemos tempo a role/ com farinha e azeite dendê/ em tempo de roer e de ser corroídos/ o consumidor é consumido/ Quando a barriga ronca, e dana a gemer/ é Cronos querendo comer/ Comer carnes e legumes/ devorar usos e costumes. / Comemos porque sofremos/ou quando estamos infelizes/ Afinal, é preciso arrancar da precisão/a Biafra de não nos sentirmos vivos ".
O personagem fala de sua ojeriza ao trabalho. Define o fato como opção filosófica. Ele vê com desprezo as pessoas que vendem as horas de seu tempo para ganhar dinheiro. Ele mesmo só faz isto quando está nas últimas. Prefere viver de bicos, como quem aceita e prefere existir em eterno risco. Em verdade, - defende-se - tinha uma certa ética em seu "trabalho". Não se considera um ladrão, no sentido comum da palavra, mas apenas alguém que, em nome da extrema necessidade, contribui para que os livros mudem de endereço. O que pode ser uma vantagem para eles, os livros, pois que, sendo postos a circular, podem encontrar novos leitores, indo parar em sebos nauseabundos. Só assim podem sair da solidão das bibliotecas de luxo, onde ninguém vai.
Meticuloso, em seu ofício, o personagem mantinha uma caderneta, onde anotava os lugares de onde surrupiava os exemplares - assim fazendo certa justiça em seu ofício de transferidor de livros. A tristeza que sentiu ao constatar que não era um somellier, um enólogo, capaz de reconhecer a cepa de um vinho, saber até mesmo ano de safra e o lugar e temperatura onde foi colhido. Como Lima Barreto, que em sua fome crônica, enfrentando o preconceito, certo dia desabafou: "É triste não ser branco!", ele também poderia ter dito: "É triste não ter bom gosto!". Naquela noite, diz à seqüestrada "tive a constatação cruel, de que não tinha paladar, de que estava fadado a gostar para sempre de vinhos vagabundos, servidos em canecas engorduradas. Por isto bebia com raiva". Como certos ricos que, por mais dinheiro que juntem, jamais terão refinamento e classe - ao dirigir seus automóveis de luxo, sempre serão vistos como motoristas.
Agnes, aficcionada pelo vampirismo, entrega-se a ele, mesmo sabendo que será a próxima vítima. Assim se faz cúmplice do homicídio que irá sofrer. Do ressentimento como motivação de atos criminosos: Fala o seqüestrador: "Desnecessário dizer que nutria uma profunda, total, insuportável inveja de quem tinha aquilo que eu jamais conseguiria ter... invejava com todas as minhas forças as pessoas que sabiam saborear vinhos finos...". Vemos, aí, o fator inveja como gerador de feroz ressentimento (pg.9). Logo adiante, á pg. 18, de novo a coincidência com o conteúdo da crônica "Os olhos dos pobres", de Baudelaire. O personagem se vê de fora do restaurante, vendo os felizes apaniguados da sorte, a se empanturrarem, lá dentro, sob o conforto do ar refrigerado.
É mais que sabido: os olhos dos ricos são seletivos, fazem de tudo para não enxergar o mundo deplorável dos sem-tudo. Passam por eles e não vêem, quando são abordados, nos semáforos, fecham os vidros, negam até responder aos pedidos, é como se fossem invisíveis as pessoas que as abordam. E são, mesmo. Como ficou provado em uma tese de doutorado, sobre a invisibilidade das pessoas que desempenham trabalhos humildes. Um servidor de uma universidade, conhecido por todos, fez uma experiência.
Passou a circular pelos corredores da instituição com uniforme de zelador. Embora muito conhecido como varredor de lixo nunca mais foi visto. Tornou-se invisível: "Nós nos olhamos por segundos, segundos apenas, e a senhora certamente não reparou no meu olhar de súplica, certamente nem notou, olhou simplesmente como se olha uma mancha na parede, um gato na calçada, uma bicicleta atravessando a rua, e depois esquece que viu a rachadura, a bicicleta, voltando a fazer o que fazia antes, sem se lembrar de nenhum registro do que viu".
O narrador/personagem quer, através dos menores gestos, adentrar o pensamento e sentimentos da mulher que mantém prisioneira. Vive no engano de pensar que o pensamento é o único instrumento capaz de veicular a verdade: "Eu queria saber o que a senhora estava pensando naquele momento ou, mais ainda, o que estava sentindo depois de ter depositado o copo sobre a mesa, de ter bebido o vinho; eu queria muito uma coisa, a senhora já quis muito uma coisa, muito mesmo, uma coisa?". Eis um trecho de sua fala a revelar o quanto é impositiva a ditadura do querer, e o sofrimento inútil do querer muito, do muito desejar ter ou realizar alguma coisa: a decepção, quando a coisa chega, (ou se nem chega|) é inevitável. Assim como no mito da medusa, assim que um desejo é alcançado, logo outro se levanta, coercitivo, ditatorial..
. Nas frases seguintes, novamente a questão do tempo é colocada - sua efemeridade e urgência, uma vez sabendo que o tempo nos salva ou nos mata: "Então vai me compreender, eu queria muito uma coisa, e logo a senhora desviou o seu olhar e voltou a segurar a taça, e a levou outra vez aos lábios, bebendo no máximo um gole de vinho, sem pressa, lentamente, como se o tempo não fosse precioso, como se nem existisse o tempo. Neste momento falei baixinho: me ensina, por favor!"
. Aí vai colocada a solidão e a exclusão dos estrangeiros, dos exilados de sua pátria e da felicidade, bem como a dos miseráveis, que têm de se contentar com a humildade de tirar retratos ao lado dos políticos. Como nos diz o poeta José Godoy Garcia: "A humildade da prostituta que vai ao cinema, senta-se ao lado da mocinha, e se sente imunda". Ou, tamanha é a solidão humana, que vem nos dizer o poeta Carlos Drummond de Andrade: "Chega um tempo em que não se diz mais/ meu Deus/ tempo de absoluta depuração./ Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor/ porque o amor resultou inútil./ E os olhos não choram/ as mãos tecem apenas o rude trabalho/ o coração está seco".
Vemos, à página 20 de A Confissão, espécie de epifania a brotar da mente do personagem, em prece-pedido para ser ensinado a ter classe. Mas é uma prece tímida, envergonhada, uma vez que confessa à mulher seqüestrada: "Ninguém ouviu, mas nem por isto deixou de ser uma prece, que nunca mais repeti, em momento algum, para ninguém, nem para mim, foi só aquela vez". A fala agônica, quase sem respiro, como de alguém tem de desabafar, e o faz com agonia, temendo nunca mais ser capaz de fazê-lo. Neste momento epifânico da prosa do personagem de Flavio Carneiro vemos a raiva reprimida do ressentido social a transformar-se em êxtase e submissão à elegância e classe da mulher. Em ato falho, aponta para o ressentimento que nega, pois o vê como um sentimento inferior: "Não, foi simplesmente uma verdade que atravessou o meu futuro".
Sim, não há como negar: há verdades e revelações que atravessam o futuro, podendo inclusive transformar nossa compreensão do passado. E a verdade que atravessou o futuro do personagem, a partir de seu presente conflitado, é esta: "Um dia vou matar essa mulher". Aqui vemos respingos de um niilista, um revoltado, excluído social, do tipo Raskolnikov - assassino real ou em potencial, capaz de racionalizar, e até de tornar romântico e libertário o seu gesto insano. Gesto desesperado e visceral, de alguém que se acha com direito a aprisionar ou matar pessoas que considere inúteis ou imprestáveis à sociedade. Seqüestrar e matar, em nome de um ideal, uma crença, uma paixão - eis o direito que a si mesmo concede o revoltado, o fanático, o revolucionário radical.
Em lugar da raiva, a idolatria, a revelar o quanto as emoções podem misturar-se, serem filhas e irmãs umas das outras. Não há nada mais perto do amor de apego, do amor equivocado, do que o ódio. "Quem sou eu para me julgar:" - eis a pergunta que se faz o seqüestrador, que assim se coloca acima de todo julgamento - acima das leis, portanto. Em sua visão, se ninguém pode julgar ninguém, todo ato é lícito, por mais bárbaro ou insano que seja. Um sentimento de solidão ou onipotência a ecoar a frase impactante deNietzsche: "Depois que Deus morreu tudo é permitido!".
O outsider cujo prazer é confessar-se e falar de seu vício apropria-se das emoções e sensações de suas vítimas. Em sua inconsistência de Ser, julga poder tornar-se inteiro (ou ele-mesmo) apropriando-se do requinte e do refinamento das mulheres que aprisiona em sua teia. A fala do seqüestrador é um elogio ao poder das sensações (sensacionismo). Exalta momentos de sensação pura: "Então precisava ser algo muito importante o que me fazia apagar do pensamento todas essas coisas desagradáveis, para dizer o mínimo, e eu não queria admitir que esse algo eram dois centímetros de uma mulher que eu jamais vira antes". Para o fetichista, ou o sensacionista, a coisa, objeto ou corpo que move e alucina e move o seu desejo até a loucura é a coisa mais importante deste mundo. Nada pode superar o frenesi que tal visão (ou alucinação) provoca: "Aqueles dois centímetros", para o fetichista, podem se tornar mais vastos que toda a Cordilheira dos Andes, ou ser mais alto do que os Himalaias, mais extensa do que os Canyons dos Estados Unidos...
Na página 22: "Sua naturalidade me comoveu; me comoveu tanto que cheguei a sentir uma ternura imensa, como nunca sentira antes". A ternura antes da violência... estranha mistura, a lembrar, de maneira invertida, os versos de Mario Faustino: "Não conseguiu firmar o nobre pacto/entre a dor do mundo e a alma pura/tanta violência, mas tanta ternura/". A questão trágica, em que se debate o nosso tempo trágico e tecnocrático é a reprodução endêmica da violência, sem um mínimo de ternura que venha a tornar humanas as cidades, suas casas e ruas.
"Talvez o ato de escovar os dentes me desse a ilusão de ter jantado" (pg. 24). Imagem que remete a lembrança à imagem de Carlitos, em um filme de Chaplin: lambendo os cadarços e os pregos de uma bota, como se fossem espinhas de peixe. No mesmo filme, ele, o eterno gauche, imagina uma gigantesca galinha, que ele e o outro faminto tentam agarrar em vão. Também em A Confissão, temos a cena patética doauto-engano: mas o escovar os dentes (com muita pasta) para anestesiar o estômago, e ter a ilusão de ter jantado, não abafa nem esconde os roncos da Biafra da barriga vazia de pão e de esperança.
É certo que neste mundo cão, em que o homem se transformou em lobo do próprio homem, como em uma fotografia famosa, de um abutre a esperar que um menino africano morra, para fazer dele seu almoço, os humanos não têm a mesma consideração: não esperam que as pessoas morram, para começar a devorá-las. Hoje se tornou ato totalmente normal, comer pessoas vivas, com vísceras e tripas (ou dividi-las em muitos pedaços, como o assassino esquartejador Mohammed de Goiânia). Não antes de devorar suas almas, que são a primeira vitalidade a ser consumida. O "não gostar de viajar de graça", aludido á pg. 24, sinaliza o outsider (estrangeiro em sua casa ou pátria), a tentar preservar um mínimo de dignidade e auto-estima.
Nos começos do capítulo o protagonista se revela flaneur, dandi sem dinheiro, sem lenço e sem documento: "o sol nas bancas de revistas/ me enche de alegria e preguiça/ quem lê tanta notícia.../". Assim vai o flaneur, pelas ruas da cidade, "nada no bolso ou nas mãos", como na canção de Caetano Veloso. "Andar à toa pela cidade me dava uma sensação parecida com alegria. Eu me sentia bem, ao caminhar a esmo, perambular pelas ruas, olhar vitrines, pessoas, cartazes.../". O simples prazer mental e físico de andar pelas ruas até os músculos doerem é atitude típica do flaneur, vagamundo requintado e pobre, nas ruas trepidantes da metrópole.
E enquanto anda, vai sabendo de notícias repetidas, a lembrar a vertigem e o absurdo de um mundo que se despedaça. De fato, há notícias demais na aldeia global, vidas de todas as mídias, e todas parecidas ou repetidas. Assim, se uma pessoa quiser economizar tempo, basta saber de uma para ver que já sabe de todas. Segue o protagonista: "Depois de chegar no meu quarto, na pensão, tirar a calça e sapatos no chão, colocar os pés para cima, encostados na parede, e ficar deitado, olhando o teto, sem fazer nada, sentindo o pequeno conforto de estar vivo". Aqui temos o vivente urbanóide que se contenta com o mínimo essencial á sobrevivência. Sendo um misantropo ou AS (anti-social), diz que evitava as pessoas, como se fosse um bicho do mato. Em sua busca para recuperar um tempo que não foi vivido (portanto, não pode ser perdido) ele segue nos trilhos do conhecido - como todas as outras pessoas, faz um esforço inútil e absurdo, como o cachorro a tentar abocanhar o próprio rabo.
Ele sabe, no entanto, que "As coisas estão interligadas, sabemos disto, não sabemos?" (Pg. 36). Assim, só revendo o antes do antes podemos reconhecer o que veio depois, mas que veio de muita coisa mais - que o devir, quando vem, já é presente, e não mais mera miragem da mente. Estranha teoria do seqüestrador: "Se alguém morre, todos, os vivos, e os que já morreram, têm uma parcela de culpa naquela morte". E como, em seu entender, todos são culpados por tudo de ruim que acontece no mundo, não há inocência em nenhuma parte da terra habitada pelo Homem. Com este raciocínio, o seqüestrador transfere à mulher a culpa pelo crime de que é vítima.
Em sua autodefesa, alega não existirem motivos para o temerem, como se diz que devemos temer o Homem de um livro só. Ele é homem de muitos livros, portanto, tão inocente e sem periculosidade quanto as pessoas de livro nenhum. Pois se o perigo destes é a ignorância, perigosos, de fato, são os que se tornam fanáticos do único livro que adoram! Ele, no entanto, diz pertencer a outra galeria: a do homem de muitos livros, mas estes não o pertencem, nem por eles é pertencido. Sua relação com os livros que rouba é de total desapego, pois sabe que "o futuro é só desvios". Ele parece saber do princípio da incerteza - talvez tenha lido um aforismo de Heráclito, para quem nesta vida tudo muda, só a mudança não muda.
Mede o valor de um livro que rouba pelo número de refeições (ou dias de aluguel) que pode pagar. E parece não estar distante de preocupações éticas: roubar dinheiro que está dentro de um livro raro é pior do que roubar o próprio livro, deixando o dinheiro dentro de uma obra medíocre? Ao menos este seria um roubo ético, e culturalmente correto... em sinal de reverência e respeito à literatura é que o fez hesitar em roubar não só o dinheiro, mas também o livro raro, em que estava escondido. O personagem adota a estratégia do pânico: imaginar o pior que lhe aconteceria o que de pior pode acontecer a uma pessoa - assim, se escapasse do que imaginara, já estaria no lucro.
Em seguida, fala dos medos mais comuns, reais ou imaginados, que a mente humana cria, em seu vício de construir o inferno interior em que quase todos vivem. A transformação crucial por que passa dá-se quando sente a alegria de se descobrir um ser dotado de paladar capaz de sentir o valor das comidas e bebidas requintadas. O êxtase de ter dinheiro no bolso, (coisa que não sentem os que sempre o têm com fartura - Pg. 51): "Era como se eu tivesse deixado a lata de lixo de um passado que de modo algum me agradava, como se a pensão, a fome, o dono do sebo, o velho meu vizinho e todas as aporrinhações do mundo fizessem agora parte da vida de outra pessoa".
Mais adiante, intrigado sobre a circunstância misteriosa da morte de Emma, admite ter consigo uma força mortal e mortífera, que leva as pessoas à morte, tão logo tenham com ele uma relação íntima: "Mas, raciocine comigo: se Agnes sabia de tudo, sabia também que ter uma relação sexual comigo significava a sua morte". Aqui fala o que se sabe vampiro da energia anímica das pessoas com quem se relaciona: "(...) não sabia o que havia acontecido entre mim e Emma, de onde viera aquela minha capacidade, vá lá, de sugar de uma mulher o que ela possuía de mais valioso para mim". Vampiro consciente de sua força destrutiva, suga das mulheres por quem se apaixona, suga o que há de mais precioso para si: a energia da vida, que no entanto não sabe cultivar nem conservar.
Seu engano é supor que possa se encontrar a partir de seu desencontro essencial. Não alcançará a unidade por meio da fragmentação de sua mente atormentada. Sendo interiormente um tumulto incoerente, não reidrata sua alma mumificada ao vampirizar suas vítimas. A morte que a que as destina não lhe devolve a vida que já não vibra em si. No final de seu longo monólogo o outsider (estrangeiro em si mesmo) desiste de ser ou parecer herói. Percebe a inutilidade e mesmo a impossibilidade disto. Volta a aceitar-se como homem comum e sem hábitos requintados. O que equivale a dizer que renuncia a idealizar e romantizar a vida, até as raias do delírio e da loucura. Renuncia à ansiedade que o fazia querer alguém que não ele mesmo. Ao fazê-lo, renuncia também ao medo, que sabe ser o caos em si - inferno atualizado. Como o Coringa, do filme Batman, poderia dizer: "O que não nos mata nos torna estranhos".




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