Flávio Carneiro
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A Confissão

Rio de Janeiro
Rocco, 2006. 235 p.

A senhora me escute, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil de minha parte interceptar seu carro àquela hora da madrugada e apontar
A Confissão
uma arma para a sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de todo modo reconheço que não fui gentil.
Tampouco pode ser visto como um sinal de boas maneiras o fato de em seguida ter guardado a arma na cintura, por dentro da calça, não, admito que não fiz isso por arrependimento, remorso, esses sentimentos delicados, eu simplesmente precisava das duas mãos livres, seria impossível aplicar sobre seu rosto assustado o lenço com clorofórmio se não estivesse com as duas mãos livres, e precisava delas também, das mãos livres, para ajeitar seu corpo inconsciente no porta-malas, por sorte a senhora não pesa muito, vê-se que mantém a forma, a elegância.
Sei também que não é nada educado, cavalheiros certamente não fazem isso, não é nada educado amarrar alguém numa poltrona como essa aí, de onde a senhora me olha com esse jeito de quem não sabe onde está, meio tonta, tentando examinar o ambiente, girando o rosto em volta, buscando uma pista, uma referência qualquer, franzindo as sobrancelhas neste quarto no fim do mundo, onde passaremos algumas horas até eu ter lhe contado, por inteiro, a minha história.
Espero pelo menos que, na medida do possível, esteja confortável. Entendo, deve ser um transtorno se ver de repente privada da companhia de seu marido, seus filhos, da sua casa espaçosa, aconchegante, limpa, farta, bem administrada, sim, entendo tudo isso mas não pense que sou um homem grosseiro, não, tenho modos, saiba, aprendi com o tempo e certas mulheres a ter um gosto refinado. Espero que aprecie o que tenho a lhe contar, a poltrona lhe agrada?, posso providenciar algumas almofadas se for do seu desejo, quero que se sinta bem e me ouça com atenção, prometo me esforçar para que possamos aproveitar ao máximo as poucas horas que dividiremos, posso lhe assegurar que serão poucas, não se preocupe. Farei o possível para que minha história lhe seja minimamente agradável, tentarei contar de modo claro e preciso tudo o que realmente aconteceu, esse ponto é absolutamente necessário, a verdade, vou lhe contar somente a verdade, mas fique sabendo de antemão, sinto mas devo dizer logo no início, não é conveniente que venha a saber disso mais tarde, vou dizer de uma vez, se é para ser dito então digamos, saiba que vou contar coisas estranhas, até assustadoras, quem sabe, para mim não são mas para a senhora podem ser, de qualquer forma lhe asseguro, desde já, que é tudo verdade.
Não, minha senhora, não adianta gritar, além de não ser grosseiro também não sou burro, não a deixaria sem mordaça se houvesse a possibilidade, mesmo remota, de sermos ouvidos fora daqui, não sou burro, este quarto foi preparado antes, as paredes, as janelas, as portas, até mesmo o piso e o teto, daqui não vaza som, podemos falar alto, gritar se quisermos, como naturalmente acaba de fazer. Preferi deixá-la sem mordaça por me preocupar com seu conforto, é certo, mas também porque gostaria de ouvi-la, gostaria que falasse, por favor, de vez em quando fale, é importante, não quero só ouvidos, preciso de suas palavras vez ou outra, se for possível, seria possível?
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