Flávio Carneiro
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Obra
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No país do presente

Rio de Janeiro
Rocco, 2005, 338 p.

A estante de Espinosa


No país do presente
A forma como arrumamos nossos livros em casa fala um pouco de nós mesmos. O próprio local escolhido para guardá-los já funciona como pista sobre o que somos ou, quem sabe, gostaríamos de ser.
Há os que preferem acomodá-los em estantes de madeira maciça, feitas para durar a vida inteira. Outros preferem estantes formadas por módulos de metal, que podem ser ampliadas de acordo com as necessidades futuras, sugerindo uma biblioteca sempre inacabada. Alguns optam por algo mais despojado, como prateleiras de tijolos ou de caixotes de feira envernizados. Os mais festivos preferem pintar cada divisória com cores vivas, alternando vermelho, laranja, amarelo, azul, verde e o que mais vier, outros optam pela alvenaria, criando nichos nas paredes, e há aqueles que colocam bibelôs aqui e ali, alegrando um pouco a biblioteca.
Talvez valesse a pena esquadrinhar, nas obras de ficção policial, as estantes dos detetives. O primeiro passo dessa investigação poderia ser dado com a estante de Espinosa, o conhecido delegado de Luiz Alfredo Garcia-Roza que, em Perseguido, está às voltas com um caso labiríntico envolvendo um psiquiatra e seu paciente.
Ao nos franquear uma breve visita ao apartamento de Espinosa, o narrador de Perseguido nos descreve a estante do detetive e, através dela, oferece indícios para a elaboração de um possível perfil de Espinosa, sugerindo traços de sua personalidade e, também, de seu método de trabalho. A engenharia da estante, como sugere o narrador, é bastante simples: "primeiro uma fileira de livros em pé ao longo do rodapé; sobre ela, outra fileira de livros na vertical; sobre esta, novamente outra fileira de livros deitados, e assim sucessivamente. A estante já ultrapassara a altura de Espinosa e, segundo a faxineira, seu equilíbrio tornava-se cada vez mais instável."
Assim como sua estante, a vida do detetive se sustenta num equilíbrio instável, a começar pela própria condição de policial numa cidade como o Rio de Janeiro, onde não se sabe precisamente quem é o bandido e quem é o mocinho. Tendo plena consciência de que o inimigo pode estar na mesa ao lado, Espinosa sabe que há poucos colegas em que pode confiar - entre eles seu fiel escudeiro, o jovem Welber, e o experiente inspetor Ramiro - e que ninguém pode lhe garantir que à noite poderá comer em paz o seu espaguete (ou sua lasanha) à bolonhesa, acompanhado de um bom (ou nem tanto) vinho tinto.
A estante, feita literalmente de livros, aponta para um outro traço de Espinosa: o gosto pela imaginação. Leitor de romances - em especial os de língua inglesa, pátria por excelência dos detetives (que o digam Poe, Doyle, Hammett) -, Espinosa age movido por uma "bizarra combinação de pensamento lógico e imaginação delirante", como bem o define Irene, sua eterna namorada. Isso faz dele, de certo modo, um inadaptado, uma espécie de flâneur saído das páginas de Baudelaire para andar calmamente pelas ruas do centro do Rio, observando vitrines, prédios, pessoas - como o Augusto Epifânio de Rubem Fonseca - ou apenas caminhando na direção dos sebos, angariando novos moradores para a estante.
Ao prescindir de qualquer material que não os próprios livros, a estante sugere também um mundo à parte, povoado por seres imaginários, vivendo uns em cima dos outros (diria mesmo uns dentro dos outros), um universo feito de histórias que se abrem para novas histórias, de modo que nunca se saiba de fato onde está a origem e onde tudo vai dar. Nesse sentido, a estante de Espinosa aponta para a própria constituição de Perseguido, romance armado a partir do cruzamento de narrativas diversas - há um prólogo e, em seguida, três partes que se intitulam: "História número um", "História número dois" e "História número três".
Na verdade, não há apenas três mas muitas outras narrativas no romance, entrelaçadas de forma tão aparentemente caótica quanto os livros na estante do detetive e, no entanto, assim como estes mesmos livros, obedecendo a ordenações possíveis, conforme a necessidade de quem deseje consultá-los. Ordenações que, por sua vez, não se pretendem definitivas, absolutas, mas apenas hipóteses viáveis, nem sempre excludentes entre si.
Tal relativização se estende a outras esferas de Perseguido. A narrativa enfoca sobretudo o dr. Nesse, psiquiatra que aos poucos revela ser um dos personagens a que se refere o título. Perseguido, no entanto, também é Jonas, ou Isidoro, seu cliente de nome duplo, e de perseguição também se queixa Letícia, filha de Nesse. No emaranhado de leituras possíveis para os fatos narrados, conceitos aparentemente opostos como sanidade e loucura, verdade e imaginação, inocência e culpa são pouco a pouco relativizados, promovendo, no livro como um todo, o mesmo equilíbrio instável que sustenta Espinosa, e, claro, sua estante.
Como todo detetive que se preza, Espinosa sabe que ninguém é apenas bom ou mau. "Somos todos ao mesmo tempo santos e criminosos. Doutor Jekyll e Mister Hyde não são criaturas excepcionais da literatura; Doutor Jekyll e Mr. Hyde somos todos nós", diz ele, a certa altura, se utilizando mais uma vez da ficção para melhor entender a vida real. Bom leitor e bom detetive, Espinosa também sabe que, nos romances e nos casos que investiga, "há algumas lacunas que nunca vamos preencher", e que o importante está nessa aparente fragilidade, como uma estante que, embora firme, está sempre prestes a ruir.
Espinosa vive e lê com a mesma intensidade. E com o mesmo desprendimento, sabendo de antemão que, em última instância, o conceito de verdade é um tanto fugidio. Pode ser que o detetive não seja tão radical quanto o dublê de escritor e detetive criado por Paul Auster em Cidade de vidro, Daniel Quinn, para quem interessava, nas histórias que escrevia, não a relação destas com o mundo, mas com outras histórias. Espinosa não chega a tanto, mas é certo que lê a ficção e o mundo com os mesmos olhos, e quem sabe desconfie de que a vida, como sua estante, não passa de uma rede de histórias diversas, imbricadas uma na outra e eternamente aberta a novos enredos, para risco e deleite de quem neles se aventure.
PERSEGUIDO - Luiz Alfredo Garcia-Roza
São Paulo: Companhia das Letras, 2003
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